Necromancia digital: a ressurreição prometida pela IA e o preço de nunca se despedir
- Por: Vitória Maria de Queiroz Lisboa e Laís Nascimento Santos

- há 5 horas
- 6 min de leitura

Se você pudesse receber uma mensagem de um ente querido que já se foi, como se ele ainda estivesse aqui, você gostaria? E se essa mensagem fosse gerada por uma inteligência artificial treinada com o que ele postou, falou ou escreveu em vida? Essa é a premissa, ao mesmo tempo assustadora e intrigante, daquilo que especialistas estão chamando de necromancia digital. O termo, que resgata a antiga prática de invocar os mortos para obter respostas, ganhou um novo significado na era da IA. Trata-se de usar algoritmos para criar avatares, chatbots (programas que simulam conversas humanas) e até deepfakes (vídeos e áudios falsos hiper-realistas) de pessoas falecidas, permitindo que os vivos interajam com suas "presenças" digitais.
Do documentário sul-coreano "I Met You" (produzido pela emissora MBC) que emocionou o mundo ao utilizar realidade virtual para promover o reencontro entre Jang Ji-sung e sua filha Nayeon, falecida aos sete anos, a serviços como o Project December (plataforma que permite conversar com simulações digitais de pessoas falecidas) e o StoryFile (que cria vídeos conversacionais interativos com respostas pré-gravadas), a tecnologia avança rapidamente. A promessa é o consolo, a "continuação dos laços" afetivos, mas o preço e as consequências dessa novidade são profundos e perigosos.
O problema central é que a tecnologia não apenas resgata a imagem do falecido, mas a reinterpreta, essas entidades póstumas não se limitam a armazenar uma vida; elas a co-criam, adaptando voz, memória e personalidade para interagir com os vivos. Isso gera um paradoxo: uma presença sem fidelidade. A pessoa que "volta" a conversar com você não é mais aquela que você conheceu, mas uma versão editada por um algoritmo, com seu comportamento moldado para engajar e gerar métricas.
O que era um caminho para a soberania e o autoconhecimento foi sutilmente transformado em um produto de estilo de vida. A angústia e o luto, experiências humanas profundas, são transformados em um problema técnico a ser resolvido pela IA. A espiritualidade que anima o cadáver da sabedoria antiga sem permitir que ela transforme é a definição assustadora de uma "necromancia algorítmica" que coopta o sagrado e o transforma em consumo.
No Brasil, o debate já chegou com força. O caso da cantora Elis Regina, “revivida” com o uso de inteligência artificial para um comercial de 70 anos da marca Volkswagen no Brasil, no final de 2023, acendeu um alerta e levou o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) a abrir um processo ético. A polêmica expôs o vazio legal e ético que existe no país.

O fenômeno não parou por aí, um novo episódio recente colocou a necromancia
digital de volta ao centro das discussões nas redes sociais. O perfil @nerdsoul.ai, no
Instagram, ganhou notoriedade ao produzir vídeos hiper-realistas com inteligência artificial que simulam o próprio criador "evitando" tragédias que vitimaram celebridades brasileiras.
Nas cenas, o influenciador aparece impedindo que Marília Mendonça embarque no
avião que a levaria ao acidente fatal, salvando Domingos Montagner de
afogamento, afastando drogas do cantor Chorão, alertando Ayrton Senna antes de
sua corrida final e entregando uma máscara de proteção ao humorista Paulo
Gustavo.

Para alguns, tratava-se de uma homenagem tocante, uma forma de "reparar" o
impossível com o auxílio da tecnologia. Para outros, a iniciativa foi invasiva, mórbida
e desrespeitosa com a memória dos artistas e, principalmente, com seus familiares.
Em resposta, chegou a tramitar na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei no
3592/23, que buscava regulamentar o uso da imagem de pessoas falecidas, exigindo autorização explícita em vida ou, na falta dela, presumindo a proibição do
uso, mas foi arquivado. Ainda assim, especialistas apontam que a legislação é
apenas uma "solução parcial" para um dilema ético muito mais complexo, como
destaca o advogado especialista em direito digital Bernardo Fico.
“Quando se trata de criar conteúdo que simule o que poderia ter sido produzido por uma pessoa já falecida, os cuidados precisam ser redobrados, pois entramos em questões que vão além da técnica da IA, abrangendo inclusive conceitos filosóficos relacionados à vida e à morte. Portanto, esse tema é naturalmente complexo e subjetivo: enquanto algumas pessoas podem ver o uso da IA como uma forma de homenagem à imagem e ao trabalho de alguém, outras podem considerá-lo inadequado e uma distorção da “persona” falecida. No texto do PL 3592/23 fica claro que esse tipo de conteúdo pode ser proibido tanto pela própria pessoa antes de seu falecimento, quanto pelos herdeiros”, afirmou o advogado.
O problema não está apenas na violação da imagem ou no potencial de golpes e
desinformação, com a criação de deepfakes políticos — recriações digitais de
líderes falecidos usadas para manipulação de narrativas históricas e até para fins
autoritários. Há também uma dimensão psicológica e política mais profunda: o luto
pode ser prolongado, transformado em vício e, mais do que isso, manipulado como
ferramenta de controle social.
É o que investiga a antropóloga Alexa Hagerty, pesquisadora da Universidade de
Cambridge, em seu projeto "Fantasmas na máquina: IA, luto e a política da morte
digital" (Ghosts in the machine: AI, mourning, and the politics of digital death). O
estudo atravessa a antropologia, a história e os estudos da ciência e tecnologia para
entender como as sociedades contemporâneas estão redesenhando a relação com
a perda, a memória e o pós-vida.
O fenômeno central analisado por ela é justamente a necromancia digital: o uso de IA para recriar ou "comunicar-se" com pessoas já falecidas, seja por meio de ghostbots (robôs-fantasma que simulam conversas) ou de deepfakes que devolvem à cena pública figuras políticas mortas.
Mas Hagerty vai além da descrição tecnológica. Sua pesquisa se debruça sobre as
dinâmicas de poder por trás dessas ressurreições digitais. Quem controla a
memória de um morto? Quem faz a curadoria dessas versões algorítmicas do que
ele foi? Em um mundo onde a morte pode ser artificialmente adiada nas telas, a
antropóloga recupera o conceito de Katherine Verdery sobre as "vidas políticas dos
corpos mortos" para pensar como líderes falecidos podem ser reanimados
digitalmente em contextos autoritários, servindo à manipulação da história e à
perpetuação de narrativas de poder.
A dimensão do luto, portanto, não é apenas individual, ela se torna política. E, no
Antropoceno — a era em que a ação humana molda o planeta —, Hagerty também
conecta essas novas formas de luto digital às angústias contemporâneas em torno
da crise ambiental. Afinal, se a tecnologia promete "nunca se despedir", o que isso
diz sobre nossa capacidade de elaborar perdas, sejam elas pessoais ou coletivas,
como o colapso ecológico?
A pergunta que fica é: a tecnologia que promete conforto estaria, na verdade, nos
aprisionando em um passado que não podemos deixar ir e, ao mesmo tempo,
sendo usada para aprisionar a própria história?
Mas não é preciso atravessar o oceano para encontrar exemplos. A necromancia
digital já chegou aos grupos de WhatsApp das famílias brasileiras.

Foi o que aconteceu com o estudante de Psicologia da Universidade Federal da
Paraíba (UFPB), Danilo Guerra, que se deparou, dias após a morte do tio, com um
vídeo do parente recriado por inteligência artificial. A imagem foi compartilhada no
grupo da família e gerou imediata comoção, especialmente em sua avó, que viu o
filho falecido "voltar à vida" na tela do celular. Para Danilo, o impacto foi imediato e
preocupante. "Minha preocupação foi com os efeitos disso no processo de luto da
minha avó. Ela estava vulnerável, e aquela imagem, por mais que parecesse um
conforto, mexeu com algo que talvez não devesse ser mexido daquela forma", relata o estudante.
"Nunca se despeça", diz o slogan de algumas empresas de "grief tech" (tecnologia do luto), sugerindo que a dor da perda pode e deve ser evitada. Empresas como a Re;memory, da DeepBrain AI, criam avatares digitais realistas que permitem que famílias enlutadas "encontrem" e conversem com seus entes queridos em um ambiente virtual, perpetuando a conexão e oferecendo a possibilidade de "nunca se despedir".
A necromancia digital, ao prometer "curar" essa dor com tecnologia, corre o risco de nos tornar prisioneiros de um loop eterno, onde o passado nos puxa para trás. Ao invés de celebrar a memória, corremos o risco de criar um mundo de "mortos-vivos digitais", uma "necrópole digital" de almas presas em uma simulação sem fim, movidas não por afeto, mas por algoritmos.


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