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Como a IA tem sido utilizada pelos designers brasileiros? Aliados ou inimigos?

  • Foto do escritor: Por: Alice Koehler, Rayane Barbosa, Júlia Custódio e Ana Cecília Veloso
    Por: Alice Koehler, Rayane Barbosa, Júlia Custódio e Ana Cecília Veloso
  • há 8 horas
  • 6 min de leitura

94% dos designers brasileiros já utilizam ou  já utilizaram ferramentas de  Inteligência artificial


Foto: Imagem ilustrativa de um escritório criado por IA
Foto: Imagem ilustrativa de escritório criado por IA


A inteligência artificial deixou de ser uma novidade e passou a integrar a rotina de quem trabalha com design. Um estudo inédito realizado em 2025 pelo estúdio de design Môre em parceria com o IBPAD (Instituto Brasileiro de Pesquisa e Análise de Dados) revela que 94% dos designers brasileiros já utilizam ou  já utilizaram ferramentas de  Inteligência artificial em suas produções. Além disso, 66% afirmam fazer uso da tecnologia diariamente. 


Na prática, a IA tem sido utilizada para otimizar processos e reduzir o tempo de produção. O designer Pedro Costa, da Gerência de comunicação e imprensa da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), explica que a ferramenta é especialmente útil quando há necessidade de criar imagens que não podem ser obtidas por outros meios ou quando os prazos são curtos. 


“Ajuda quando o conceito ou a demandas exige alguma imagem que não tenho como obter por outros meios, ou quando o tempo para produção de determinada imagem é limitado, nesses casos a IA pode contribuir ao reduzir o tempo de produção ou a obter imagens que não estão disponíveis nos bancos de imagem”.

A percepção é compartilhada pela designer Alessa Duarte. Para ela, o principal benefício da tecnologia está na automatização de tarefas operacionais, permitindo que o profissional dedique mais tempo ao desenvolvimento das soluções de design.


Foto: Alessa Duarte/arquivo pessoal
Foto: Alessa Duarte/arquivo pessoal

“Acredito que a IA ajuda principalmente em tarefas mais repetitivas ou que levariam muito tempo para finalizar, como transcrição de entrevistas com usuários e reuniões com stakeholders, documentação de processos, validação de ideias e análise de viabilidade técnica", salienta Duarte.


Entretanto, a praticidade oferecida pela tecnologia também exige cautela. Ferramentas de Inteligência artificial podem produzir respostas incorretas ou criar conteúdo sem precisão, tornando indispensável a revisão humana. 


"Em determinadas situações a inteligência artificial pode chegar à alucinação, que é quando ela passa a responder informações erradas como se fossem corretas. Acredito que esse seja um dos maiores riscos do seu uso, e que ressalta ainda mais a importância de sempre verificar a veracidade das informações e saber em quais momentos ela deve ser utilizada”, conclui a designer.

Mais do que acelerar processos, a IA também tem provocado reflexões sobre os limites entre automação e criatividade. Para o professor do Departamento de Mídias Digitais da UFPB, Daniel Marques, a tecnologia possui grande potencial para atuar como suporte em etapas técnicas e organizacionais do projeto, mas ainda está distante de substituir aquilo que caracteriza o design enquanto uma atividade humana. 


Foto: Daniel Marques, professor do DEMID, UFPB./ Arquivo pessoal.
Foto: Daniel Marques, professor do DEMID, UFPB./ Arquivo pessoal.

“Para quem trabalha com projeto de design de verdade, a IA tem um potencial poderoso como assistente nos bastidores desse processo: pesquisa, análise de dados, cruzamento de referências, síntese de entrevistas com clientes e consumidores, organização de fluxo de trabalho e gerenciamento de projetos. Há também toda uma dimensão mais mecânica e industrial do trabalho, como a produção de materiais derivados a partir de um sistema de identidade visual já pronto. São tarefas mais braçais e menos conceituais, que podem ser delegadas a sistemas de inteligência artificial”, reforça Marques.


Segundo ele, a IA pode contribuir na pesquisa, análise de dados, cruzamento de referenciais, organização de fluxos de trabalho e até na produção de materiais derivados de uma identidade visual existente. No entanto, a criação de soluções capazes de responder às necessidades das pessoas continua dependendo do pensamento crítico e da capacidade projetual do designer. 


“Mas a essência do design, o desenvolvimento de soluções projetuais para melhorar a vida das pessoas e resolver problemas de natureza mercadológica, exige um nível de sofisticação de pensamento projetual que não se delega a uma máquina. Ela não foi feita para isso. É uma faculdade humana”, enfatiza o professor.

As mudanças também já são percebidas no mercado de trabalho. O domínio de ferramentas de Inteligência Artificial deixou de ser apenas um diferencial competitivo e começa a fazer parte das competências esperadas por empresas e clientes. Ao mesmo tempo, cresce o debate sobre quais funções podem ser automatizadas e como os profissionais podem se adaptar a essa realidade. 


Para Alessa Duarte, a IA já faz parte da rotina profissional e deve ser encarada como um utensílio de apoio, sem substituir o conhecimento técnico e pensamento crítico do designer. 


“Sinto que, até o ano passado, a integração da inteligência artificial na rotina profissional era considerada um diferencial, mas agora passou a ser vista como um requisito. Houve mudanças nos processos de design e no tempo que levamos para realizar cada tarefa, a IA é uma ferramenta de apoio capaz de facilitar o fluxo de trabalho e que já está sendo explorada em diversas empresas. Porém, é sempre levar em consideração os pontos éticos, legais e de segurança desse uso. Além disso, a inteligência artificial não substitui de forma alguma o conhecimento e o pensamento crítico do profissional.”


Alguns segmentos podem sofrer impactos mais diretos com a evolução dessas tecnologias, principalmente aqueles voltados para produções rápidas e serviços de menor complexidade, como acredita o designer Pedro Costa:


“ Eu acho que seus efeitos são múltiplos. Muitos prestadores de serviço rápido foram afetados, pequenas gráficas que ofereciam um serviço rápido de logo ou de arte, estudantes que pegavam pequenas freelas com empresas que estavam começando. Todos esses serão afetados. Produtores de imagens também serão afetados, conforme os designers mais experientes vão encontrando formas de produzir imagens de qualidade com a IA, muitos fotógrafos, videomakers, ilustradores e cenografistas serão substituídos pela tecnologia.”


Foto: Pedro Costa, designer/arquivo pessoal
Foto: Pedro Costa, designer/arquivo pessoal

Entre as estudantes, entretanto, a perspectiva é mais otimista. Para Alanna Pontes, o avanço da Inteligência Artificial pode até aumentar a valorização de projetos desenvolvidos por pessoas, justamente por carregarem repertórios culturais, identidade e criatividade.


”Muito se conversa sobre a substituição da profissão pela inteligência artificial, mas quanto mais o público é soterrado por projetos genéricos e sem alma, mais cresce o desejo por projetos que são feitos por pessoas reais, até mesmo à mão, que tenham um coração humano. Aqui no Brasil, o design é muito mais sobre conexão, repertório cultural e criatividade, enquanto a IA é apenas uma das (muitas) ferramentas que podemos usar para potencializar o trabalho. Quando uma marca, empresa ou agência deixa a ferramenta agir sozinha, o resultado é sempre um projeto sem personalidade que não vai ser lembrado por ninguém. Minha expectativa é que o mercado de trabalho em Design se mantenha estável.”  

A estudante de mídias digitais, Celine Cavalcante, também acredita que a profissão continuará relevante, mas considera que o mercado exigirá profissionais mais preparados para lidar com essas tecnologias e atento às discussões sobre ética e regulamentação. 


“Não acho que o Mercado vai acabar como muitos dizem, mas que vai cobrar mais excelência e limitar a entrada de novos profissionais, e os já inseridos no mercado vão precisar elevar o nível de conhecimento para se destacar nesse meio, e provavelmente implementar a IA como ferramenta. Mas também espero que criem uma regulamentação para o uso da IA pelos diversos problemas que ela traz.”

Uma dúvida que muitos possuem diz respeito ao quanto podemos confiar nas respostas das inteligências artificiais, mas tudo é uma questão de ensiná-la como responder, já que muitos dos erros que a IA comete estão relacionados a respostas genéricas por falta de contexto, porque ela ainda é uma ferramenta que não entende emoções e não entende a complexidade humana. Sobre isso, o professor Daniel Marques diz que: 


“Erro aqui pode significar coisas distintas. Pode ser alucinação, falha na entrega do que foi pedido, erro de interpretação, equívoco de raciocínio, baixa sofisticação no modo como certos temas são tratados. Há uma dimensão mais objetiva, que é errar uma informação verificável. Há as alucinações, invenções que decorrem do próprio funcionamento das redes neurais, e que já são graves por si só".


Entretanto, é preciso refletir não só sobre os eventuais erros que os sistemas de IA cometem. Marques aponta ainda para o que é mais grave nessa dinâmica:


Mas o que considero mais grave, na verdade, não é bem um erro. É a simplificação. Esse último ponto tem menos a ver com a IA errar e mais com o que nós estamos dispostos a aceitar como resposta boa. É uma questão de valoração. Mesmo quando a inteligência artificial não comete erro objetivo algum, o problema está no que passamos a considerar adequado, no padrão que aceitamos como suficiente. Essa é, talvez, a questão mais interessante de todas.”

O que acontece, na verdade, é o acúmulo de informações baseados puramente na confiança cega de que a IA vai entender e assimilar tudo que armazena, mas isso apenas a torna uma memória sem significado algum.


A inteligência artificial segue dividindo opiniões por onde passa, seja no meio acadêmico ou no mercado de trabalho, e no design não seria diferente. A IA ainda não foi rotulada como boa ou ruim, mas o uso deve ser moderado, reinterpretado e exige que os profissionais confiram as informações antes de finalizar ou publicar um projeto que foi feito com seu auxílio. 




 
 
 

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