Muito além do ChatGPT: como a inteligência artificial deixou de ser invisível no dia a dia
- Por: Jamily Oliveira, Kaliane Vitória, Pamella Sousa e Pedro Nery

- há 2 dias
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A popularização das IAs generativas colocou em evidência uma tecnologia que antes operava de forma quase imperceptível
A popularização de ferramentas como ChatGPT, Gemini e Claude fez a inteligência artificial ganhar espaço nas conversas, nas redes sociais e no ambiente de trabalho. Para muitos, foi o primeiro contato com a tecnologia. Mas, muito antes de responder perguntas ou criar imagens em segundos, a IA já estava presente em aplicativos e serviços utilizados diariamente, ainda que passasse despercebida.
Durante anos, a inteligência artificial atuou de forma silenciosa. Ela analisava dados, identificava padrões de comportamento e auxiliava diferentes serviços digitais sem que a maioria dos usuários percebesse sua presença. Esse cenário mudou com a popularização das inteligências artificiais generativas, como ChatGPT, Gemini e Claude. Pela primeira vez, milhões de pessoas passaram a interagir diretamente com essa tecnologia, que deixou de operar apenas nos bastidores e passou a fazer parte das conversas do dia a dia.
Essa transformação também aparece nos números. O Relatório Global de Difusão da IA (AI Diffusion Report), divulgado pela Microsoft em 2026, mostra que o uso da inteligência artificial continua em expansão no mundo. No primeiro trimestre de 2026, a adoção global da tecnologia passou de 16,3% para 17,8% da população mundial em idade ativa. O levantamento também aponta que 26 economias já registram taxas de uso superiores a 30% da população em idade ativa.
A presença da IA também se fortaleceu no ambiente corporativo. Um estudo da KPMG que a inteligência artificial permanece no centro da estratégia das empresas. Entre as organizações brasileiras participantes da pesquisa, 100% afirmaram já utilizar soluções de automação e inteligência artificial, enquanto 81% declararam investir em capacidades de IA agêntica, voltadas para a execução autônoma de tarefas.
Embora as IAs generativas tenham ampliado a visibilidade da tecnologia, a inteligência artificial já fazia parte de diferentes serviços utilizados diariamente. Sistemas de recomendação em plataformas de streaming, aplicativos de navegação, filtros de spam, reconhecimento facial e mecanismos de segurança bancária são alguns exemplos de aplicações que utilizam IA há anos, muitas vezes sem que os usuários percebam sua presença.
Quando a IA deixou de ser invisível
Para Carlos Eduardo, pesquisador da área de Inteligência Artificial e professor do Centro de Informática da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), a popularização das ferramentas generativas fez com que muitas pessoas acreditassem que a inteligência artificial surgiu recentemente. Na prática, porém, a tecnologia já estava presente em diversos serviços utilizados diariamente.
"A popularização do ChatGPT não trouxe a IA para o cotidiano. Vários dos serviços que usamos já se valiam do que chamamos de IA há alguns anos: sistemas de recomendação, filtros de spam, correção ortográfica, reconhecimento facial", explicou.
Segundo o pesquisador, a principal transformação ocorreu na forma como as pessoas passaram a interagir com a inteligência artificial. Antes, a tecnologia atuava nos bastidores de diferentes serviços digitais, processando informações e automatizando tarefas sem interação direta com os usuários. Com as IAs generativas, essa relação se tornou mais acessível e intuitiva.
"As IAs generativas produzem um artefato que as pessoas reconhecem como trabalho intelectual, como um texto, uma imagem ou um código-fonte. E não é preciso saber programar para usar uma LLM (Large Language Model, em português Modelo de Linguagem de Grande Escala), basta escrever uma frase para obter o resultado", afirmou.
A facilidade de interação ampliou o acesso à inteligência artificial e aproximou a tecnologia de milhões de pessoas. O que antes operava de forma quase imperceptível em aplicativos e plataformas digitais passou a fazer parte da rotina de estudantes, profissionais e usuários comuns, tornando a IA cada vez mais presente nas atividades do dia a dia.
Da curiosidade ao cotidiano
A mudança na forma como as pessoas passaram a enxergar a inteligência artificial também pode ser percebida na experiência de Mariana Alves, de 25 anos, estudante de Psicologia. Ela conta que, durante muito tempo, associava a tecnologia apenas ao universo da
computação e nunca imaginou que já utilizava recursos baseados em IA no dia a dia.
O primeiro contato com ferramentas generativas aconteceu durante a graduação, quando começou a utilizar o ChatGPT para organizar os estudos e esclarecer dúvidas sobre os conteúdos das disciplinas. "Antes eu achava que inteligência artificial era algo muito distante, coisa de filme ou de quem trabalhava com tecnologia. Depois que comecei a usar o ChatGPT, percebi que ela já fazia parte do meu dia a dia há muito tempo. Hoje vejo que uso IA quando recebo recomendações de músicas e filmes, quando o GPS escolhe a melhor rota e até quando desbloqueio o celular", contou.
A partir dessa experiência, Mariana passou a reconhecer a presença da inteligência artificial em aplicativos e serviços que já utilizava diariamente. Para ela, a tecnologia não surgiu de repente, mas passou a ser percebida de forma mais evidente com a popularização das ferramentas generativas.
"Antes eu achava que inteligência artificial era algo muito distante, coisa de filme ou de quem trabalhava com tecnologia. Depois que comecei a usar o ChatGPT, percebi que ela já fazia parte do meu dia a dia há muito tempo. Hoje vejo que uso IA quando recebo recomendações de músicas e filmes, quando o GPS escolhe a melhor rota e até quando desbloqueio o celular", conta.
Hoje, Mariana reconhece a presença da inteligência artificial em aplicativos e serviços que já utilizava diariamente. O contato com as ferramentas generativas tornou mais evidente uma tecnologia que já fazia parte do seu cotidiano.
Quando a IA entrou na rotina profissional
A popularização da inteligência artificial também transformou o ambiente de trabalho. Em profissões que exigem rapidez, produtividade e organização, a tecnologia passou a ser utilizada como ferramenta de apoio para otimizar processos e reduzir o tempo dedicado a tarefas operacionais.
No jornalismo, essa realidade faz parte da rotina do Jornalista Lucas Rodrigues. Atualmente, ele utiliza a inteligência artificial para organizar pautas, revisar textos e estruturar informações antes da produção das reportagens. A adaptação, no entanto, aconteceu de forma gradual.
"Eu trabalhava 'na mão mesmo'. Eu nem tinha noção de como funcionava esse tipo de tecnologia. Demorei muito para me adaptar e tentar aplicar isso à minha realidade", relata.
Com equipes mais enxutas e um volume cada vez maior de conteúdo para produzir, Lucas encontrou na inteligência artificial uma forma de ganhar agilidade na organização e revisão dos textos. Com isso, consegue dedicar mais tempo à apuração, à checagem das informações e ao contato com as fontes. "Ela passou a ser essencial quando o enxugamento de gastos e, claro, de profissionais qualificados nas redações passou a ser uma realidade, tendo em vista que me vi na obrigação de escrever cerca de cinco a oito pautas por plantão", afirma.
Para Lucas, a inteligência artificial não substitui o trabalho do jornalista, mas amplia sua capacidade de produção. "No meu caso e para a minha demanda, ela funciona como um apoio e uma colega de profissão, porque ela me auxilia", completa.
Uma presença cada vez mais visível
Há poucos anos, poucas pessoas saberiam apontar onde a inteligência artificial estava presente no dia a dia. Hoje, ela auxilia estudantes, apoia profissionais, organiza informações, personaliza serviços e está presente em aplicativos e plataformas utilizados diariamente.
Mais do que apresentar uma nova tecnologia, as inteligências artificiais generativas mudaram a forma como a sociedade passou a perceber uma ferramenta que já integrava diferentes serviços digitais. O que antes permanecia nos bastidores dos algoritmos passou a fazer parte das conversas, dos estudos e do ambiente de trabalho.
Ao mesmo tempo em que amplia a produtividade e democratiza o acesso a diferentes recursos, a inteligência artificial também impulsiona debates sobre ética, privacidade, direitos autorais e o papel do pensamento humano diante de sistemas cada vez mais presentes na vida das pessoas.
Para o pesquisador Carlos Eduardo, o principal desafio não está apenas em aprender a utilizar essas ferramentas, mas em desenvolver um uso consciente da tecnologia.
"Quem dedica mais tempo planejando e especificando o que vai gerar tende a ter resultados melhores e um domínio maior sobre o que é produzido", explica.
A popularização da inteligência artificial tornou mais evidente uma tecnologia que já fazia parte da rotina das pessoas. Mais do que descobrir onde ela está presente, o desafio agora é compreender como utilizá-la de forma ética, crítica e responsável.



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