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A inteligência artificial fortalece a gestão do SUS?

  • Foto do escritor: Por:  Ana Carolina Barros, Aida Belaunde, Saulo Levy
    Por: Ana Carolina Barros, Aida Belaunde, Saulo Levy
  • há 2 dias
  • 4 min de leitura

Atualizado: há 1 dia


Quando a tecnologia se une com a ciência . UFPB oferta curso sobre o uso da inteligência artificial destinado a gestores e profissionais vinculados ao SUS 



Fonte: unidade de saúde do Polo Wawi - MS
Fonte: unidade de saúde do Polo Wawi - MS



A Inteligência Artificial (IA) tem transformado diferentes setores da sociedade e, na saúde pública surge como uma importante aliada para aprimorar a gestão, qualificar o atendimento e ampliar a capacidade de resposta dos serviços. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a tecnologia já é utilizada para aprimorar e melhorar a velocidade e precisão na triagem  e no diagnóstico de doenças, no atendimento clínico, no fortalecimento de pesquisas, no desenvolvimento de medicamentos e também é capaz de contribuir em áreas estratégicas da saúde pública, como a vigilância de doenças e na gestão de sistemas de saúde. 


Observando esse cenário a Universidade Federal da Paraíba (UFPB) em parceria com o Ministério da Saúde,  desenvolve o projeto SABIA-SUS, que oferece uma formação voltada à gestão e ao uso da inteligência artificial no Sistema Único de Saúde (SUS). A iniciativa busca preparar gestores e profissionais para utilizar dados e ferramentas tecnológicas na tomada de decisões e no planejamento de políticas públicas. 


Segundo o professor de estatística, Hemilio Coelho, um dos responsáveis pelo projeto, a proposta surgiu diante da necessidade de transformar a grande quantidade de dados produzidos diariamente pelo SUS em informações qualificadas para subsidiar decisões estratégicas. 


Fonte: Professor Hemilio Coelho da UFPB/arquivo pessoal
Fonte: Professor Hemilio Coelho da UFPB/arquivo pessoal

“O SUS vive hoje um desafio muito importante: transformar a grande quantidade de dados produzidos nos serviços de saúde em informação qualificada para a gestão, o planejamento e a tomada de decisão. Ao mesmo tempo, a transformação digital e o avanço da inteligência artificial passaram a exigir novas competências dos profissionais que atuam na saúde pública”, explica.

Para a técnica de enfermagem Hiolanda Mangueira, a chegada da Inteligência artificial em um mundo tecnológico onde as informações verídicas e não verídicas (fake news) são de fácil acesso, o sistema de saúde vive grandes desafios como a descredibilização dos profissionais que fazem o sistema público funcionar, colocando assim em questionamento conhecimentos adquiridos em anos de estudos e preparação.


De acordo com Hiolanda, esse novo cenário exige cada vez mais preparação, embasamento científico para uma condução ética, o que chamamos de educação permanente. Desse modo, nos deparamos com mais desafios, a falta de investimento por parte da gestão em capacitar os seus profissionais.



De acordo com o docente, o SABIA-SUS reúne essa demanda do sistema público de saúde, à experiência acumulada pela UFPB, especialmente por meio do Programa de Pós-Graduação em Modelos de Decisão e Saúde, na formação de profissionais capazes de utilizar ciência de dados, estatística, modelos matemáticos e inteligência artificial para enfrentar problemas reais da saúde pública. 


Mais que ensinar o uso de ferramentas tecnológicas, o curso pretende desenvolver competências para que os participantes interpretem indicadores, analisem dados territoriais, identifiquem problemas prioritários e tomem decisões fundamentadas em evidências. A formação também busca estimular uma visão crítica sobre os limites e as possibilidades da Inteligência Artificial dentro do SUS. 


Para Hemilio Coelho, a tecnologia não substitui a atuação dos profissionais da saúde nem dos gestores. Seu papel é ampliar a capacidade de análise e oferecer suporte às decisões humanas.


“A inteligência artificial pode apoiar o monitoramento de indicadores, prever demandas, identificar áreas mais vulneráveis, acompanhar o desempenho dos serviços e qualificar o planejamento da gestão pública. No entanto, ela deve ser entendida como uma ferramenta de apoio, utilizada com responsabilidade e compromisso com os princípios do SUS”, ressalta. 

Esse entendimento também é compartilhado pelo Conselho Federal de Medicina (CFM). Ao publicar a Resolução nº 2.454/2026, a entidade estabeleceu que a inteligência artificial pode ser utilizada como ferramenta de apoio à decisão clínica, à gestão em saúde e à pesquisa, desde que respeite critérios éticos e legais. A norma determina que a responsabilidade final pelas decisões diagnósticas, terapêuticas e prognósticas permanece sempre com o médico, reforçando que a tecnologia deve complementar, e não substituir, a atuação humana.


A formação também aproxima os participantes de situações práticas vivenciadas no cotidiano dos serviços de saúde. O curso trabalha com estudos de caso relacionados à análise territorial, avaliação de desempenho, planejamento e monitoramento de ações  e utilização de dados para solucionar problemas concretos enfrentados pela gestão pública. 


Apesar do potencial da tecnologia, sua implementação ainda enfrenta desafios importantes.  Entre eles estão a necessidade de bases de dados organizadas, maior integração entre os sistemas de informação, investimentos em infraestrutura tecnológica, conectividade, capacitação profissional e fortalecimento da informação. 


Outro ponto importante abordado durante o curso é a ética no uso da inteligência artificial. Questões relacionadas à privacidade, proteção de dados, segurança dos algoritmos e responsabilidade nas decisões automatizadas fazem parte da formação, considerando que os dados utilizados na saúde são altamente sensíveis e exigem rigor na sua utilização. 


Quando se trata de inteligência artificial aplicada à saúde, é indispensável compreender que as tecnologias lidam com dados sensíveis e decisões que impactam diretamente a vida da população.


"É fundamental que qualquer ferramenta de inteligência artificial seja implementada com critérios éticos, respeito à privacidade, à segurança dos dados e à equidade. No SUS, a tecnologia precisa reduzir desigualdades, e não ampliá-las", afirma Coelho.

O curso é destinado a gestores e profissionais vinculados ao SUS que atuam nas áreas de planejamento, assistência, educação permanente, monitoramento, avaliação e gestão. Não é necessário possuir conhecimentos prévios em tecnologia ou Inteligência Artificial, já que a proposta é oferecer uma formação multiprofissional acessível a diferentes perfis de participantes.


A expectativa da equipe responsável é que a capacitação contribua para fortalecer a cultura do uso de evidências na gestão pública, tornando os profissionais mais preparados para interpretar informações, planejar intervenções, monitorar resultados e aprimorar a organização dos serviços de saúde.


Para o professor Hemilio Coelho, investir na formação de profissionais para acompanhar as transformações tecnológicas é também fortalecer o próprio SUS.


"A universidade pública tem um papel estratégico na formação de profissionais capazes de responder aos desafios contemporâneos da sociedade. A transformação digital só produzirá resultados positivos se vier acompanhada de uma formação crítica, qualificada e comprometida com o interesse público", afirma.

Nos próximos anos, a expectativa é que a Inteligência Artificial seja cada vez mais incorporada à vigilância em saúde, à análise de indicadores, à gestão de filas, ao planejamento territorial, ao apoio à atenção primária, ao monitoramento de doenças crônicas e à identificação de populações mais vulneráveis. Para os pesquisadores, o desafio será garantir que essas tecnologias sejam utilizadas para fortalecer os princípios do SUS, ampliar a equidade e oferecer um cuidado cada vez mais eficiente e baseado em evidências.


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