A IA no design gráfico: o impacto da inteligência artificial no trabalho criativo
- Por: Aline Nery, Kalyne Lustosa e Rayssa Vitória

- há 1 dia
- 7 min de leitura
A IA tem potencial de roubar o trabalho dos designers?

Desmistificando o mito
Não se pode negar que estamos vivendo uma era de grandes revoluções tecnológicas, e o avanço da Inteligência Artificial evidencia esta nova realidade.
Neste cenário de mudanças onde a tecnologia se torna ferramenta de otimização do trabalho, o profissional que a domina se destaca, apto às exigências atuais do mercado.
Segundo dados disponibilizados pelo Datafolha, há uma queda no medo da substituição profissional e, consequentemente, na rejeição do uso da IA. Cada vez mais, o brasileiro a reconhece como um instrumento de apoio às atividades humanas. No entanto, 70% dos entrevistados ainda mencionaram o receio de serem prejudicados.
No mercado de Design, onde o processo de criação envolve pesquisa, técnica e criatividade, esse medo também existe.
Mas… tem fundamento temer essa substituição?
De acordo com a mestranda em Design Gráfico, Alana Vetroni, essa é uma apreensão corriqueira, porém estereotipada.
“Esse é um receio muito comum, mas acredito que ele parte de uma visão equivocada sobre o que faz um designer. A inteligência artificial é uma ferramenta de produção, não um profissional. [...] Ela amplia as possibilidades de execução, mas não substitui pensamento estratégico, direção criativa ou conhecimento de design.” – Alana Vetroni, designer.

O impacto da IA no mercado de design
Se a Inteligência Artificial e suas funções não substituem o olhar técnico do profissional de design, qual é, de fato, o seu verdadeiro impacto no mercado de trabalho gráfico? A resposta está principalmente na democratização da comunicação visual, especialmente quando se trata do mercado de pequenos empreendedores.
Quando se trata de iniciar um novo negócio, a inteligência artificial pode se tornar um recurso de expansão valioso para os empreendedores que ainda não podem destinar parte do investimento financeiro para contratação de designers e agências publicitárias.
Gleydson Nery, administrador de um pequeno empreendimento, conta que apesar de utilizar pouco a ferramenta, ela tem auxiliado na divulgação da loja e prevê a expansão do uso a longo prazo.
“Acredito que assim como o uso da Internet no seu início, a tendência é nos tornarmos cada vez mais dependentes por ser uma nova ferramenta que auxilia a sociedade como um todo. A grande questão é saber fazer o uso sério, honesto e eficiente da ferramenta.” – Gleydson Nery, administrador.
O Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), comprova esse novo panorama através da pesquisa realizada em parceria com o Instituto Brasileiro de Economia – o FGV IBRE – com a colaboração do Google, juntos eles mapearam o uso da tecnologia em cerca de 5.000 empresas de todos os portes no Brasil. Quando se trata das micro e pequenas empresas (MPE) , às ferramentas de marketing e divulgação são utilizadas por 59% delas. Os números são ainda mais expressivos entre os Microempreendedores Individuais (MEI), dos quais 74% utilizam essas funcionalidades da inteligência artificial.
Entre os pequenos empreendedores, a utilidade e eficiência da IA é um consenso. Para Helena Foshi, empreendedora de 58 anos, os recursos de geração de imagem facilitam o dia a dia na divulgação de produtos e engajamento nas redes sociais.
“Comecei a utilizar [a IA] recentemente, pela praticidade. Com ela, tenho menos tempo [perdido] para criação e mais agilidade para postagem. Acho que a longo prazo passa a ser útil e vantajoso utilizar.” – Helena Foshi, empreendedora.
“A maior vantagem é a agilidade no desenvolvimento, principalmente, de artes visuais, uma vez que, nosso maior foco de venda e marketing são as redes sociais. Então, tanto para estratégias pré-estruturadas como para atividades rápidas e curtas, a agilidade da IA auxilia muito.” – Gleydson Nery, administrador.
Além disso, Alana explica que esta realidade tende a ser uma progressão orgânica, na qual “[...] conforme essas empresas crescem, elas percebem a necessidade de investir em profissionais que consigam construir estratégia, identidade e posicionamento de marca — algo que vai muito além da geração de imagens”.
Quando falamos sobre os impactos imediatos nos setores da área criativa do Design, embora ainda seja cedo para termos conclusões concretas, o Professor Doutor em Design e Expressão Gráfica da Universidade Federal da Paraíba, Leandro Lopes, relata que a área de criação e edição de imagens e vídeos é especificamente a mais afetada.
“[...] a área de geração e edição de imagens (foto e vídeo) é notadamente uma das mais impactadas. Hoje um usuário que não conhece nada sobre técnicas fotográficas consegue gerar resultados incríveis, sem custo.” – Leandro Lopes, professor da UFPB.
Porém, apesar da IA generativa oferecer autonomia e facilidade na produção de conteúdos imagéticos, ainda existem muitos limites técnicos. Como, por exemplo, a dependência de combinações genéticas de elementos coletados em grandes quantidades. Há ainda a necessidade do usuário precisar fornecer referências exatas e detalhadas daquilo que está buscando e principalmente existe o fator crucial, é o que explica o professor Leandro.
A questão principal, é sem dúvidas o fator humano. Apesar da inteligência artificial resolver a urgência de produções isoladas e servir como auxiliar para o próprio profissional de design, a IA ainda não é capaz de lidar com demandas de estratégia, posicionamento de marca e tomadas de decisões.
O uso da IA : limites éticos e a proteção de direitos de imagem

O Design Gráfico é, em essência, comunicação visual. Sendo assim, uma produção publicitária, um post para as redes sociais ou um simples cartaz, não são formados apenas por um grupo de informações desconexas e grafismos ou cores chamativas, com a capacidade de reter a atenção do público. Tais peças gráficas, quando feitas por um designer, são estruturadas para atender uma determinada demanda comunicacional: anunciar um novo produto, comunicar mudanças em atendimentos, apresentar novos recursos, etc. São, também, moldadas como um recurso de posicionamento comercial estratégico: como a empresa quer ser vista no mercado e com qual público dialoga ou deseja atrair.
Apesar de haver esforço por parte das bigtechs para uma maior diversidade nas imagens geradas por inteligência artificial, segundo a Leadster, um problema comum nas criações imagéticas feitas pela tecnologia é uma padronização onde tudo se torna igual e genérico. Tudo fica com “cara” de IA.
O problema se agrava quando o assunto é segurança de dados e privacidade.
Recentemente, a Meta IA anunciou o Muse Image, uma nova ferramenta de criação de imagem a partir de fotos e vídeos publicados pelos usuários do Instagram maiores de 18 anos. Esta ferramenta, no entanto, foi desativada após a repercussão negativa entre os internautas, preocupados com a violação de privacidade e falta de consentimento por trás da ativação do novo recurso.
Casos como este evidenciam a urgência em regulamentar tais ferramentas tecnológicas, pois elas ainda podem ser treinadas com qualquer imagem disponibilizada publicamente na internet ou demais conteúdos, violando a privacidade de milhões de usuários e direitos autorais de diversos artistas e profissionais.
Por outro lado, as imagens geradas por IA podem também comprometer os direitos do consumidor, quando não representa o produto real ofertado, criando falsa expectativa: o cliente recebe algo diferente daquilo que comprou. Este recurso tem incomodado, principalmente, nos aplicativos de delivery.
Apesar de apresentar problemáticas, a incorporação dos recursos de inteligência artificial no design gráfico já é uma realidade e pode contribuir com o dia a dia profissional, respeitando os limites éticos. É o que defende o professor Leandro Lopes.
“Entendo que [a IA] facilitará a identificação de plágios, fornecerá orientações precisas sobre como evitá-los e também sobre como proteger seus direitos. Já aconteceu de eu solicitar a geração de uma imagem e a IA informar que fere as políticas de direitos de imagem, por exemplo.” – Leandro Lopes, professor da UFPB.
Portanto, o profissional em design gráfico continuará sendo necessário ainda que a tecnologia seja aprimorada. É ele quem ajudará a identificar, compreender e abordar todas essas preocupações éticas e comerciais. Sobretudo, ajudará a propor soluções.
IA: vilã ou aliada dos designers?
A realidade desconhecida pela maioria das pessoas fora do mercado profissional dos designers, é que a profissão não é baseada apenas no talento e visão criativa do designer, muito pelo contrário, exige que o profissional esteja constantemente estudando e pesquisando novas práticas, tendências, softwares e atualizações.
É especialmente nesse aspecto técnico que a Inteligência Artificial se distancia do papel de vilã, para se aproximar como aliada. A IA possibilita a automação de trabalhos repetitivos, agilizando o fluxo das atividades burocráticas. Dessa forma, permitindo que os designers possam focar no processo criativo de seus projetos e aumentar significativamente a sua produtividade. Além disso, a IA pode ser utilizada também como um laboratório de ideias, analisando e filtrando as tendências que estão em alta no mundo do design gráfico.
Por outro lado, é sempre válido voltarmos a bater na tecla acerca dos limites éticos relativos aos plágios e ao fato de que algumas IAs são treinadas a partir de criações de artistas que não deram autorização. Assim, é crucial que o profissional tenha cautela e consciência ao utilizar esta tecnologia, utilizando-a sempre de forma transparente e respeitando o trabalho intelectual de outros profissionais.
Acerca disto, tanto o professor Leandro quanto a designer Alana compartilham opiniões semelhantes:
“Acredito que nesses casos, a IA pode servir como estímulo ao processo criativo, não como resultado final. Muitas vezes é interessante que o usuário forneça referências daquilo que está buscando para que a IA seja induzida para o sentido desejado. Vejo isso como algo positivo, desde que não fira direitos autorais.” – Leandro Lopes, professor da UFPB.

“Acredito que a IA pode contribuir de forma ética quando é utilizada como uma ferramenta de apoio ao processo criativo — para organizar ideias, acelerar tarefas repetitivas, explorar possibilidades ou auxiliar na pesquisa — desde que exista transparência sobre seu uso e respeito ao trabalho intelectual de outros profissionais.” – Alana Vetroni, designer.



Comentários