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Mercado imobiliário em alta, cidade em tensão

  • Foto do escritor: Luane Monteiro e Jorge Neto
    Luane Monteiro e Jorge Neto
  • 25 de mar.
  • 5 min de leitura

Atualizado: há 4 dias

Entre o luxo e a falta de infraestrutura, João Pessoa cresce sem acompanhar o próprio ritmo



João Pessoa entrou de vez no radar nacional do mercado imobiliário de luxo. Nos últimos anos, a capital paraibana deixou de ser vista apenas como destino turístico e passou a ocupar espaço entre as cidades mais valorizadas do país.


Em 2026, a capital paraibana já figura entre as dez capitais com o metro quadrado mais caro em imóveis de alto padrão, segundo levantamento do portal WSCOM. A valorização anual chega a 10,6%, mesmo com oscilações pontuais ao longo dos meses, como a queda registrada em fevereiro.


Esse crescimento não acontece por acaso. A cidade reúne fatores que, para investidores, são considerados estratégicos, mesmo com suas contradições: qualidade de vida elevada, expansão do turismo e uma imagem consolidada de destino seguro e atrativo. Dados recentes apontam que 96% dos turistas que visitam a Paraíba desejam retornar, enquanto a ocupação hoteleira chegou a 90% durante o último verão. Ao mesmo tempo, João Pessoa lidera o ranking do Nordeste no Índice de Progresso Social (IPS Brasil 2025), reforçando a percepção de bem-estar urbano e atraindo olhares para além do litoral.


Esse cenário ajuda a explicar o avanço de empreendimentos de alto padrão, que ganham força em áreas nobres e apresenta forte expansão. Bairros como Cabo Branco já figuram entre os 50 mais caros do Brasil, impulsionados por localização privilegiada e infraestrutura urbana completa. Projetos ambiciosos, como o lançamento da Setai em parceria com a Aston Martin, uma torre de 45 andares com apartamentos que chegam a R$8 milhões, exemplificam esse novo patamar de sofisticação.


O litoral paraibano se consolida como destino favorito para morar e investir, com mercado aquecido por qualidade de vida e rentabilidade, enquanto a Zona Norte lidera projeções de valorização para 2026, concentrando a maior parte desses investimentos e atraindo um público que busca o chamado "quiet luxury", um consumo mais discreto, mas altamente valorizado.


Mas esse crescimento revela um contraste que ganha visibilidade: enquanto o mercado de luxo se fortalece e redefine o horizonte da cidade, o acesso à moradia para classe média e baixa renda segue sendo um desafio que exige atenção urgente.


Programas habitacionais como o Minha Casa Minha Vida (MCMV) surgem como principal porta de entrada para famílias de baixa renda, com João Pessoa liderando o Nordeste em contratos e ocupando o terceiro lugar nacional. Nos últimos dois anos, a Paraíba contratou cerca de 65 mil unidades habitacionais, com um investimento federal de R$ 8,1 bilhões que dinamiza a construção civil local e beneficia milhares de famílias.


Além disso, o programa impulsionou um recorde de lançamentos imobiliários em 2025, com ajustes recentes ampliando subsídios via FGTS para faixas 1 e 2, além de propostas para elevar limites de renda e valor dos imóveis.


Para a classe média, o mercado privado adapta-se com opções mais acessíveis, como imóveis compactos e prontos para morar, que ganham espaço entre investidores em busca de menor risco e rentabilidade imediata. Uma alta de 109% nos lares unipessoais impulsiona a demanda por apartamentos menores em João Pessoa, adequando a oferta a novos perfis familiares e facilitando locações rápidas. Empresas como a MRV reforçam essa tendência ao bater recordes de vendas na Paraíba e anunciar novos investimentos, consolidando o MCMV como motor de expansão habitacional para além da baixa renda. Essa diversificação demonstra como o setor responde à pressão demográfica, mas também eleva a demanda por serviços urbanos em bairros emergentes.


O dinamismo do setor reflete-se na geração de empregos e no pulso econômico local: a construção civil registrou 46 mil admissões na Paraíba, com projeções de alta para 2026, enquanto pequenos negócios criaram mais de mil vagas só em janeiro, impulsionados pela cadeia de moradias acessíveis. No entanto, o custo de vida pressiona: aluguéis subiram 1,32% em fevereiro, com Miramar registrando alta de 39%, apesar de deflações pontuais de 0,73% que oferecem alívio temporário ao consumidor. Esses números sinalizam um mercado vibrante, mas sensível a fatores externos como inflação e oferta limitada, que testam a resiliência das famílias de classe média.


Esse equilíbrio entre expansão acessível e geração de renda evidencia o potencial transformador do mercado imobiliário em João Pessoa. Contudo, o ritmo acelerado de construções – tanto populares quanto premium – começa a esbarrar em limites urbanos, com debates sobre infraestrutura ganhando urgência. A insegurança jurídica em torno da Lei de Uso e Ocupação do Solo (LUOS), por exemplo, já freia novos projetos e empregos na construção, alertam especialistas. Questões como mobilidade, saneamento e planejamento do solo urbano emergem como o próximo teste para sustentar esse boom habitacional sem aprofundar desigualdades.


A discussão em torno da Lei de Uso e Ocupação do Solo (LUOS) exemplifica esse cenário: especialistas consultados pela imprensa alertam que a insegurança jurídica gerada por decisões judiciais, como a suspensão inicial do dispositivo pelo TJ-PB e embargos subsequentes, impacta diretamente a geração de empregos (até 32 mil em risco), registros de imóveis e previsibilidade de investimentos, levando a atrasos, paralisações e judicialização em massa.


Mais do que um problema técnico, a infraestrutura se torna fator determinante para o futuro da cidade. O crescimento acelerado, sem planejamento integrado, tende a aprofundar desigualdades: de um lado, bairros valorizados como Cabo Branco e a Zona Norte; do outro, periferias com limitações em saneamento, como exposto em reportagem pelo jornalista André Trigueiro no programa Cidades e Soluções da GloboNews, com esgoto poluindo o litoral durante a expansão imobiliária e mobilidade precária. Iniciativas positivas, como o aporte de R$ 1 milhão da MRV em melhorias urbanas e debates do órgão de classe dos engenheiros sobre infraestrutura viária, mostram esforços pontuais, mas insuficientes ante a escalada do boom.


Esse descompasso revela que o mercado imobiliário não pode ser analisado isoladamente: ele reflete decisões políticas, prioridades de gestão e a capacidade do poder público de acompanhar transformações econômicas. Programas como João Pessoa Sustentável, que recebeu aporte de US$159,4 milhões do Banco Interamericano de Desenvolvimento para infraestrutura e habitação, indicam avanços, mas o vácuo regulatório da LUOS e problemas ambientais persistem. É nesse ponto que o debate transcende imóveis e vira questão de cidade: o potencial de investimentos e renda é claro, mas sem planejamento consistente – em mobilidade, saneamento e legislação urbana –, o avanço pode se tornar desigual e insustentável.


Em ano eleitoral, essa pauta ganha peso decisivo. Escolhas sobre LUOS, distribuição de recursos e expansão sustentável não são neutras: ignorá-las amplia a distância entre crescimento econômico e qualidade de vida. A valorização imobiliária sinaliza desenvolvimento, mas, sem infraestrutura à altura, arrisca exclusão social. O voto, aqui, moldará como João Pessoa será construída nos próximos anos.


 
 
 

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