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Elas são maioria nas urnas, mas ainda não mandam na política

  • Foto do escritor: Repórter: Carlos Eduardo Araújo
    Repórter: Carlos Eduardo Araújo
  • há 3 horas
  • 4 min de leitura

Com 52,9% do eleitorado na Paraíba, mulheres têm força decisiva nas eleições, mas seguem sub-representadas no poder.



As mulheres são maioria entre os eleitores da Paraíba — e não por pouca margem. Um levantamento com 40 mil entrevistas em todo o estado mostra que elas representam 52,95% do eleitorado, em linha com os dados do Tribunal Superior Eleitoral. Mas esse peso nas urnas esbarra em um limite claro: ele ainda não se converte, na mesma proporção, em poder político.


Na Assembleia Legislativa da Paraíba, por exemplo, são apenas 6 mulheres entre 36 parlamentares. Um dado que sintetiza a contradição central da política brasileira: quem mais vota não é quem mais decide.


Para a deputada estadual e presidente do PT da Paraíba, Cida Ramos, essa distância não

é acidental.

“Somos maioria na sociedade, somos a maioria do eleitorado, mas seguimos sub-representadas nos espaços de decisão" reforça a deputada estadual Cida Ramos (PT).

Maioria numérica, diversidade real


Se por um lado as mulheres formam a maioria do eleitorado, por outro, não existe um “voto feminino” único. Os dados mostram que 66,9% dos eleitores paraibanos vivem com até dois salários mínimos, o que indica que a experiência social — especialmente entre mulheres — é marcada por desigualdades que impactam diretamente a decisão de voto.


Isso fragmenta esse eleitorado. Enquanto parte das mulheres prioriza pautas ligadas a direitos e representatividade, outra parcela, especialmente em contextos de maior vulnerabilidade, toma decisões a partir de urgências concretas: renda, acesso à saúde, transporte.


Na prática, o voto feminino se organiza menos como identidade coletiva e mais como resposta à vida cotidiana. Uma eleitora de João Pessoa ouvida pela reportagem resume esse processo: “Postura ética, reputação, ideais e propostas. Isso é o que mais pesa.”


“Postura ética, reputação, ideais e propostas. Isso é o que mais pesa.”

O voto passa pela vida real


A fala da eleitora revela um ponto central: o voto feminino não é automático — ele é construído. E passa, necessariamente, pela realidade. “A falta de segurança, o caos da mobilidade urbana e a ausência de políticas públicas efetivas impactam diretamente minha vida.”


A percepção se conecta com a leitura de Cida Ramos (PT): “A vida concreta pesa muito: renda, custo de vida e políticas sociais, mas a identificação e a representatividade também contam.”


A combinação entre esses fatores ajuda a explicar por que campanhas que apostam apenas em identidade ou discurso simbólico tendem a falhar.


Representatividade sob condição


Ser mulher não garante automaticamente o voto feminino. “Influencia, sim. Mas não é suficiente. Precisa que o histórico, a postura ética e as propostas estejam alinhados com meus valores”, afirma a eleitora.


A fala evidencia um eleitorado mais exigente — e menos disposto a aderir a candidaturas apenas por identificação de gênero. Ao mesmo tempo, a ausência de mulheres nos espaços de poder impacta diretamente a formulação de políticas públicas. “Ainda hoje são os homens que decidem sobre políticas que impactam diretamente nossos corpos”, afirma Cida Ramos.

“Ainda hoje são os homens que decidem sobre políticas que impactam diretamente nossos corpos”, afirma Cida Ramos.

Campanhas falam, mas não escutam


Mesmo sendo maioria, mulheres ainda são tratadas como um público genérico nas campanhas. “Falta escuta ativa e propostas específicas para as diferentes realidades das mulheres”, afirma Cida Ramos.


Do outro lado, a percepção é de distanciamento — e até desconfiança. “Muitos parecem estar apenas atuando, mantendo um personagem”, diz a eleitora. O resultado é um desencontro: campanhas que falam sobre mulheres, mas não necessariamente com elas.


Uma estrutura que limita

A sub-representação feminina não se explica apenas pelo comportamento do eleitorado, mas por um conjunto de barreiras estruturais.

Entre elas:

  • menor acesso a financiamento

  • menos tempo de propaganda

  • sobrecarga do cuidado

  • violência política de gênero


“A política foi feita para a figura masculina”, resume Cida Ramos. Ela relata que essa desigualdade não desaparece após a eleição. “Mesmo no meu segundo mandato, ainda recebo violência política de gênero.”

“Mesmo no meu segundo mandato, ainda recebo violência política de gênero", relata Cida Ramos (PT).

Quando o território pesa

A influência da realidade social se intensifica em áreas mais vulneráveis, onde o voto tende a ser ainda mais pragmático. “Emprego, renda, acesso à saúde e segurança são decisivos”, afirma a deputada. Ela descreve uma situação recorrente: “Uma mulher passa horas no transporte, chega em casa e precisa resolver um problema de saúde sem estrutura próxima. É isso que pesa na hora do voto.”


Decisivo nas urnas, limitado no poder

Mesmo com essas limitações, o voto feminino tem potencial decisivo — especialmente em disputas equilibradas.“As mulheres estão cada vez mais atentas e participando mais da política”, afirma Cida Ramos.


"As mulheres estão cada vez mais atentas e participando mais da política”, afirma Cida Ramos (PT).

Mas esse protagonismo ainda é parcial. As mulheres definem resultados — mas não ocupam, na mesma medida, os espaços onde as decisões são tomadas.


O ponto de ruptura

Os dados e relatos apontam para um impasse: O voto feminino já é central nas eleições. Mas ainda não se converte plenamente em poder político Romper essa distância exige mais do que participação eleitoral. “Precisamos de mais mulheres candidatas com condições reais de disputar, financiamento justo e combate à violência política”, defende Cida Ramos.

Até lá, a política seguirá operando sob uma lógica em que quem é maioria nas urnas ainda não é maioria no poder.


 
 
 

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